Ao longo do ano lectivo, os alunos da turma 9º C partilharam com os colegas os seus livros de cabeceira, apresentando excelentes razões para que as suas leituras fossem secundadas por outros. Deixamos agora, as últimas recensões escritas no âmbito do projecto «O Meu Livro de Cabeceira», à laia de propostas de leitura para férias.
Tinha 12 anos, peguei na bicicleta e fui para a escola:
O livro que li ao longo do terceiro período intitula-se Tinha 12 anos, peguei na bicicleta e fui para a escola, livro este escrito por Sabine Dardenne (Bertrand).
Gostei do teor desta obra, visto que se trata-se de um testemunho dramático e real de Sabinne, que viveu 80 dias de violência infligida por Marc Dutroux. Este é um criminoso, apelidado de "Monstro Belga", e que manteve a rapariga em cativeiro, em condições tétricas e hostis. Antes do sucedido, Marc já havia morto 4 crianças.
Tudo começa quando Sabinne, como todos os dias, saiu para ir para a escola de bicicleta e apareceu uma carrinha (que, aliás, já a tinha seguido): dois homens metem-na lá dentro numa fracção de segundos. Quando chegam a uma casa, Marc prende Sabinne num quarto minúsculo com apenas um colchão e uma mesinha.
O desenrolar da história é todo ele à volta do mesmo: Sabinne afirma que o "monstro" lhe dava para comer latas de conserva, leite e umas bolachas de nome "nic-nac". Sem entrar em grandes pormenores, Sabinne conta episódios de violações, do seu serão com Marc a ver canais pornográficos e dos metodos de higiene a que o mesmo a submete. Esta não ousava sair de casa, mesmo podendo fazê-lo facilmente, pois as chaves estavam sempre na porta, e havia um telefone.
Porém, Marc fazia-lhe uma espécie de “lavagem cereberal”, dizendo que havia um chefe, que a queria matar, e se ela ligasse do telefone a chamada ia directamente para ele. Sabinne depois de uma rotina repetitiva, pediu uma amiga, amiga essa que lhe foi concedida, Laetitia, também ela prisioneira de Marc. Todavia, passado pouco tempo, ambas são salvas, por um polícia infiltrado na vida de Marc.
Aconselho a leitura deste livro, porque é interessantíssimo e viciante, visto que li o mesmo em apenas duas noites. É muito inquietante e revoltante do princípio ao fim, pois ficamos abismados com as atrocidades que o "monstro belga" faz a uma menina de apenas 12 anos.
Catarina Cerqueira (nº 4, 9º C)
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O guarda da praia:
Ultimamente andei a ler O guarda da praia de Maria Teresa Gonzalez.
Este livro vai narrando a história de vida de um rapaz que sofreu muito, por isso achei-o muito amargo, até porque a escritora relata os acontecimentos com frieza fazendo-nos assim sentir parte do sofrimento que a personagem, neste caso o Luís, está a sentir.
O rapaz, também conhecido por Dunas, era misterioso e o narrador acaba por desvendar alguns segredos da sua família, revelando por exemplo o que o pai do Dunas fez à mãe do mesmo: “Então, louco como estava, coitado, foi de noite buscá-la à campa, embrulhou-a numa manta e trouxe-a para a praia, onde a enterrou sozinho num lugar que não revelou a ninguém, nem a mim!”
É um dos episódios terríveis que ao ler incomoda o leitor, mexe de uma forma dolorosa e sentimental, tal como sucede noutros livros de Maria Tereza Maia Gonzalez. O livro começa por narrar o final e só depois se desenvolve, a partir de uma analepse, e só assim começamos assim a perceber o que aconteceu. Tem um final um pouco desagradável, pois o Dunas acaba por perder a sua avó e também a sua amiga, a escritora e vai viver para América junto do pai que mal conhece.
É um fim que deixa a desejar, depois de tanto sofrimento acho que ficava bem um final mais alegre. Quando peguei no livro não estava com grandes expectativas, julguei-o pela capa mas ainda bem que arrisquei: é uma boa leitura e aconselho-o a todos que gostam de livros com acontecimentos trágicos.
Jéssica Monteiro (nº 8, 9º C)
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Os da minha rua:
O livro que li, no âmbito do projecto «O Meu Livro de Cabeceira», foi Os da minha rua, um conjunto de contos escritos por Ondjaki (escritor que nasceu em Luanda, em 1977).
Este livro contém várias estórias, podendo então afirmar que elas recordam a infância do autor, passada numa certa rua onde conheceu várias pessoas e onde aprendeu muitos conceitos acerca da vida. As lembranças do autor revelam sentimentos marcantes do seu espaço social, mais propriamente dos lugares por onde ele passou e das pessoas com quem ele passou momentos importantes. Ele descreve a rua como um espaço de descoberta, de alegria, de tristeza e de amizade.
No meio de muitas estórias, as que mais me marcaram foram “O voo do Jika” e “O Bigode do professor de Geografia”. Mas todos os outros são muito bons também.
Em “O voo do Jika” fala de um grupo de rapazes: Jika era o mais novo da sua rua, o pequeno que eles protegiam dos mais velhos. Um dia, Jika foi tocar a casa do Ndalu. Era perto do meio-dia e rapaz fez-se convidado para lá almoçar. Ndalu sendo seu amigo não se importou. Depois do almoço, Jika disse que ia a casa buscar “uma coisa”, ele ficou a espera dele com o portão aberto; depois voltou com a “coisa” escondida debaixo do braço, subiram ao primeiro andar e saltaram da varanda para uma espécie de telhado, aproximaram-se da berma Jika abriu um muito, muito pequenino guarda-chuva azul e disse: “Põe a mão aqui / agora podemos saltar!” O outro respondeu: “Tens a certeza?”, e o Jika replicou: V“amos só” , e saltaram. Jika teve a ideia de ir buscar um maior, mas Ndalu não quis voltar a repetir e Jika ficou desanimado. Nesta estória, Jika parece não gostar de estar em sua casa, mas sim na do Ndalu na sua companhia.
Em “O Bigode do professor de Geografia”, fala-se de um professor de Geografia, que era um homem baixinho com a barriga redonda e um bigode muito fininho, do género dos artistas dos filmes, falava quase sempre baixo e tinha pouca paciência nas aulas. Dois rapazes da turma gostavam de “estigar” com ele. Usava uma camisa esverdeada de quase todas quintas-feiras um suor já tinha virado mancha escura. O Joel e o Nuno decidiram gozar com ele, mas a brincadeira saiu-lhes mal porque o professor zangou-se e disse " Ó seus filhos da puta, vocês tão a brincar com esta merda ou quê ?”, e eles com medo calaram-se. Naquela altura até parecia que o bigode estava também zangado com eles, pois nunca tinham ouvido tal coisa em plena sala de aulas. Ele sentou-se na sua secretária bocejou e muito zangado disse: “Pensam que esta merda do salário que me pagam aqui é suficiente pra vos aturar? Ahn? E não vale a pena irem fazer queixinhas nos vossos pais”. Depois fez uma pausa, voltou e exclamou “Vocês tenham muito cuidado… Muito cuidado mesmo.”
Eles tremiam e o tempo não queria passar. E o professor referiu “Se um dia destes lerem no jornal que o professor de tal matou umas pessoas...não tenham dúvidas, sou mesmo eu! Ouviram bem, seus filhos da puta?”. A tarde estava quieta, sem passarinhos de fazer um bocadinho de barulho, nada, o medo era tanto que ninguém engolia cuspe para não fazer ruído, bocejou mais uma vez e ninguém se mexeu, tocou e ele disse: podem sair. O professor meio triste foi o ultimo a sair da sala, tinha as costas ensopadas de suor, numa mancha que já não fazia desenho nenhum. O camarada professor de Geografia tinha o bigode dos maus dos filmes.
Nesta estória, os alunos parecem ter um certo gozo de “estigar” o professor, mas ao mesmo tempo mostram medo dele. Retirei algumas das frases que gostei do livro: “não se esqueçam que vocês, as crianças, são as flores da humanidade”; “para o tio Vítor que nos dava prendas-do-dia para a Buraquinhos”; “antigamente as pessoas eram pessoas de chegar. Não sabíamos fazer despedidas”
Porquê esta escolha? Porque adoro os livros de Ondjaki! É um escritor com grande sensibilidade e eu fiquei muito entusiasmada com a capa e tive logo curiosidade de o ler. Então decidi concentrar-me nesta leitura. Depois de ter lido este livro, notei que o vocabulário é diferente, e por isso aconselho-o a todos os meus colegas que gostarem de novas experiências de leitura.
Marta Cardoso (nº 14, 9º C)
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Dos maus e bons pecados:
O título que escolhi, no âmbito do projecto «O Meu Livro de Cabeceira» foi «Crónica dos maus e bons pecados», um conto da autoria de João Ricardo Lopes (poeta, e autor de livros para jovens e adultos que nasceu em 1977, em Guimarães). Foi publicado em 2007, pela editora Opera Omnia.
Este conto fala-nos do reviver da juventude, já quando somos adultos. A personagem desta história regressa a uma discoteca, passados dez anos da última vez que lá fora. Esta diz-nos que antigamente a noção de “curtir” era muito diferente da de agora, as pistas estão cheias de jovens aos apalpões, a fazer charros, a raparigas com minissaias de cabedal e os rapazes “cool” de cabelos repuxados.
Isto fê-lo lembrar-se dos seus tempos de miúdo, de noites eufóricas e de alucinante diversão. Lembrou-se sobretudo da Madonna. Assim sendo, como tinha gostado tanto do seu single “Jump”, decidiu comprar o novo single “the confessions tour”, arriscando a sua fama de intelectual.E assim ficou recordada a sua juventude tal como os seus bons e maus pecados.
Vejamos alguns exemplos que mostram tudo o que foi dito anteriormente: “Mutatis mutandis, ou talvez não, eis-me agora. Deixei de saber o que são os espaços nocturnos, saio pouco. Lembro-me da última ou das últimas aventuras, miúdos insolentes enrolados no pifo medonho de charros e ecstasys, espécie de energúmenos dançando vanguardas coreográficas com apalpões e preliminares sexuais à mistura, com o resto da turba a aplaudir.”
“O Jump ficou. Ficou como afinal ficam os maus e bons pecados, como ficam aliás todas as pequenas idolatrias que nunca deixam de ser as nossas idolatrias. E se antigos alunos se quedarem perplexos, mirando-nos como dinossauros revindos ao mundo, ainda bem, é caso para aprenderem outra vez o insondável sentido do verbo curtir. Se não souberem o que é, perguntem-me.”
Porquê ler este conto e este livro? Já andava para o ler a algum tempo, pois este livro foi escrito, e muito bem, pelo meu professor. Não me arrependo de o ler porque para além de ter contos, que nos ensinam passagens da vida, tem também episódios muito engraçados.
A linguagem desta obra é uma das suas virtudes: é bastante rica em vocabulário, tornando-se por vezes um pouco difícil de compreender mas é isso que a torna numa boa obra. O registo de língua varia entre o corrente e o literário. Esta linguagem é ao mesmo tempo simples e literária como se pode ver nos seguintes exemplos:
“O importante de todos os lugares é poder recordá-los. E confesse-se a verdade, apesar da relutância, acabei por trazer de lá uma crónica, um número de telemóvel, a roupa a tresandar a tabaco e duas amigas em estado, como dizer, de alegre passeata. Curiosamente, uma coincidência histórica levou-me a recordar velhas noites eufóricas e o instinto alucinante da diversão – Madonna.”
A qualidade da obra de João Ricardo Lopes não merece quaisquer dúvidas, o que se comprova pelo número de leitores que tem (a começar por mim).
Sílvia Teixeira (nº18, 9º C)
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O título que escolhi, para o projecto «O Meu Livro de Cabeceira» foi Dos bons e maus pecados, de onde extraí «Um poeta», um conto de João Ricardo Lopes (poeta, e autor de livros para jovens e que nasceu em 1977, em Guimarães). Foi publicado em 2007, pela Opera Omnia.
Este conto fala-nos de um poeta não reconhecido, que era também um sem-abrigo. Ele fazia do seu talento o seu “ganha-pão”, escrevia os seus poemas numa espécie de guardanapos e vendia-os por um preço muito baixo, pois as pessoas estavam muito longe de compreender aquilo que ele escrevia.
Um dia ele deu ao seu amigo e admirador um poema e não quis que este lhe pagasse, disse apenas que era um “presente de amigo”.
Dias depois, veio a saber que o seu amigo poeta (de seu nome Santiago), morrera enforcando-se: ficou muito triste com a notícia e foi assim que percebeu o que queria este último poema que recebera — era uma despedida!
Vejamos alguns exemplos que mostram tudo o que foi dito anteriormente:
“No Porto conheci um homem chamado Santiago Rui, poeta desconhecido e angustiado pela falta de dinheiro. Santiago escrevia amiúde em guardanapos e pedaços de folhas, impecavelmente recortados, irmanados na sua escrita pausada e dispersa.”
Porquê ler este livro? Foi-me recomendado pela minha colega de turma Sílvia, e também porque foi escrito pelo meu professor. Gostei muito de o ler e estou ansiosa por ler outros contos, pois pelo que vi aqui penso que este livro me ira ensinar algumas coisas sobre a vida.
Cátia Sousa (nº 5, 9º C)



