quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ler faz bem à saúde!



Ler faz bem à saúde! Vamos lá, briquemos assim! Façamos nascer em nós o hábito de ler, sem aquele medo injustificado de que os olhos nos fujam quando os mergulharmos no caudal dos livros.

Eu fui sempre uma leitora rebelde, preferi os livros o que nunca ninguém me sugeriu. Sou orgulhosa a esse ponto. Mas não a ponto de dispensar a enorme dádiva de aprender e de me transformar aos poucos, parágrafo depois de parágrafo. Andar numa coisa de “tu cá, tu lá com os livros” faz isso, faz-nos crescer lenta mas solidamente, como quem vai colhendo migalhas de ouro, como quem passa pelo milagre de sem dar por ela ter acumulado uma fortuna. Hoje tropeçamos numa palavra difícil, amanhã somos nós quem ensina o significado dessa palavra. Parece mentira, mas não é! A leitura é prestigiante.

Ler faz bem, em definitivo! Na escola, nos jardins, na praia, na cama, no escritório, na casa de banho, na esplanada, no banco do autocarro, no avião, na fila para as finanças. Importa, em primeiro lugar, sacudir da cabeça a ideia do "aqui não". A seguir, é só tirar o livro de bolso (um romance, um volume de poesia, um punhado de crónicas, sei lá) e pronto, desligar em volta um dos ouvidos, afundar no silêncio e beber as palavras.

Com esta idade, continuo igual a mim mesma. Continuo a ler só o que me apetece. E apetece-me sempre ler livros novos, porque eles são parecidos com estrear roupa nova. Mesmo quando vou à estante e trago um título antigo, é como se o estivesse a ler pela primeira vez, porque os nossos olhos compreendem coisas diferentes cada vez que se embrulham com as frases.

Às vezes perguntam-me o que achei da obra tal, do ensaio de não sei quem, do novo trabalho deste ou daquela. Tenho pouca vontade de partilhar o que acho nos livros, pois sempre encontrarei mais motivos para gostar deles ou para não gostar. Aqueles que amo são um caso à parte. «O Principezinho», por exemplo, não o li, treli-o. As aventuras do Robinson Crusoé são ainda um divertimento. Gosto de aventuras, gosto de cheirar nos livros a excitação das personagens, de sacudir o pó à imaginação e andar com elas pelos países mais longínquos e exóticos.

Ler faz bem aos olhos. E não me convenço de que possa haver melhor para se semear na alma, sobretudo neste tempo em que a mediocridade se assemelha a um fungo alastrado em tudo o que tocamos. Ler é mais ou menos a auto-estrada para o sucesso. Bons leitores hoje serão, sem margem para equívocos, excelentes homens e mulheres amanhã. Falta apenas contornar a portagem, depois é ir juntando a riqueza, à velocidade que cada um impuser, vida fora.

Texto de Doris Lessing
(Escritora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 2007)