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segunda-feira, 6 de junho de 2011

«Aqui gostamos de ler Almeida Garrett»






















Já antes aqui  nos pronunciámos sobre O Toucador, «Periódico sem política dedicado às Senhoras portuguezas», onde Almeida Garrett teceu diversas críticas sobre arte e moda, onde colhemos por exemplo esta nótula sobre o teatro de Shakespeare:

Deixemos o teatro inglês, e os seus pregoeiros; contentemo-nos de admirar o imortal Shakespeare; mas não o louvemos, respeitemos o seu grande génio, mas não somos obrigados a amá-lo. Espantou-nos muitas vezes, mas nenhuma nos encantou. A falta de respeito, e de delicadeza, com que tratou o belo sexo, a rusticidade das expressões, com que o ele usou, o desacreditam aos olhos do leitor sensível, e possuído de seus deveres, que não pode reconhecer mérito em quem se esqueceu deles para que a porção mais bela da espécie, a cuja glória só queremos, e devemos trabalhar.


Ver agora sem vergonha
Ver o tal Inglês malcriado
Jogar chalaça de arrieiro
Sobre o trágico tablado!


Ouvir o ladrão dum preto
A bela infeliz amante
Dizer finezas d’ Alfama
Em linguagem de estudante!


Ver o herói, ardendo em zelos
Mais negros que a sua cara,
Afogar c’ um travesseiro
À inocente, a quem roubara!


Se isto em Inglês é beleza
De expressão, e de energia;
Entre nós, os portugueses
É nojenta porcaria.

Não pense algum rígido censor que nós julgamos de leve tão acreditado poeta: esta é uma das suas mais afamadas tragédias, o Otelo. (…)


Almeida Garrett, O Toucador (com actualização linguística do original da BNP)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

«Aqui gostamos de ler Almeida Garrett»





















Ilustração da época, reproduzida na obra citada infra (p.65)


Uma das facetas em que se notabilizou Almeida Garrett foi, como o referimos já, a sua veia retórica, vinda a lume desde cedo com intervenções políticas, mas também jornalísticas, como as que publicou a meias com Luís Francisco Midosi em O Toucador, jornal sobre modas, teatro, namoro, bailes, passeios, entre outros, primeiro do género no nosso País, por se tratar de um «Periódico sem política dedicado às Senhoras portuguezas».

A editora Vega republicou o que entre 1822 veio a lume, em sete números e um prospecto, e de que hoje damos conta num pequeno excerto (sobre moda, precisamente). Sobre esta publicação, aconselhamos a leitura do ensaio de Irene Fialho, disponível aqui, a partir da Biblioteca Digital Camões.

«A beleza principal da moda consiste na sua variedade e inconstância. Criada para o belo sexo, e por ele dirigida, deve necessariamente participar da sua natureza.

Longe de mim declamar agora contra a natural volubilidade das belas! Loucamente lhes tem sido criminada esta propensão. Que cegos que são os homens em discernir o que é mais de seus interesses! Que seria do mundo, e dos seus prazeres, que seria de nós, e de nossos divertimentos, se uma fatigadora constância, uma incomodante firmeza nos ligassem por uma eternidade amorosa a um único objecto. Que insipidez perpétua, que sensaboria uniforme!»

Almeida Garrett, O Toucador (edição Vega)